Editorial: A direita brasileira foi sequestrada pelo bolsonarismo?

Desde o encerramento do primeiro turno das eleições de 2026, a legitimidade da direita que hoje se apresenta no Brasil e as pautas defendidas por esse grupo têm sido alvos de discussão.

Afinal, aonde foi parar a direita que defende a democracia e que participou ativamente da luta pela redemocratização do país?

O declínio de partidos de direita, como o enfraquecido PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), que ajudou a escrever a história política recente do país com figuras importantes como Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da República; José Serra, ex-ministro da Saúde e ex-governador de São Paulo; Geraldo Alckmin, ex-governador paulista e atual vice-presidente da República; entre tantos outros nomes, contribuiu para que esse campo político fosse gradualmente incorporado pelo bolsonarismo?

Em 2022, com a vitória do PT para o governo federal, houve uma aproximação de partidos e lideranças de direita com o campo bolsonarista, movimento que ficou evidente, por exemplo, em São Paulo, com a eleição de Tarcísio de Freitas para o governo estadual.

Por questões ideológicas, mas também por conveniência política e pela busca de investimentos e programas governamentais, prefeitos e lideranças de direita abraçaram Tarcísio — carioca e aliado político de Jair Bolsonaro em São Paulo. Até aqui, a estratégia poderia ser compreendida como parte das articulações esperadas no campo democrático. O problema começa quando essa aproximação passa a conviver com discursos e práticas que colocam em questão os próprios limites da democracia.

O bolsonarismo flertou com a ruptura institucional, e seu principal líder, Jair Bolsonaro, foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal por sua participação na trama golpista. Desde então, parte de seus aliados tem procurado contestar ou relativizar os fatos e as decisões judiciais relacionados a esse episódio, levantando questionamentos sobre o compromisso desse grupo com as instituições democráticas.

O cenário se torna ainda mais preocupante quando parlamentares associados a esse campo político conquistam mandatos com discursos concentrados em controvérsias culturais e na restrição de direitos, como o voto feminino, uma conquista fundamental da sociedade, em vez de priorizar os problemas estruturais do país.

Depois do primeiro turno, em outubro deste ano, esse alerta se intensifica diante das declarações de Flávio Bolsonaro sobre mudanças na Constituição. Recentemente, o senador defendeu alterações constitucionais, alegando que seu grupo já conta com maioria no Congresso Nacional.

Além disso, o próprio PL divulgou, em seu canal oficial no WhatsApp, uma arte de Flávio Bolsonaro que apresentava semelhanças visuais com uma peça de propaganda utilizada pelo regime fascista de Benito Mussolini, na Itália, em 1934. A publicação foi posteriormente removida, e o partido afirmou que não houve intenção de fazer essa referência. Ainda assim, o episódio levanta questionamentos sobre o uso de símbolos associados a regimes autoritários.

Figuras eleitas pelo partido também protagonizaram atitudes controversas, como a de uma deputada que comemorou sua votação utilizando um chicote. A mesma parlamentar utiliza uma coroa de flores na cabeça, elemento cuja associação à ideologia racial nazista exige contextualização. Outro deputado eleito afirmou que pretende combater minorias, enquanto uma deputada se declara antifeminista e alega, inclusive, que o feminicídio não existe — um crime que, infelizmente, continua presente em nossa região.

Afinal, quando propostas e manifestações dessa natureza entram no debate público, é necessário questionar seus limites, suas consequências e sua compatibilidade com os princípios do Estado Democrático de Direito.

Mas a preocupação vai além do respeito às instituições democráticas. Há também uma questão ética e social: a quem servem esses discursos? Que problemas concretos da população procuram resolver? E que tipo de sociedade ajudam a construir quando direitos fundamentais e a dignidade de determinados grupos passam a ser utilizados como instrumentos de mobilização política?

A questão central é que o campo político que hoje reivindica a representação da direita brasileira abriga discursos e propostas que levantam preocupações sobre o respeito às instituições democráticas e aos próprios cidadãos.

Não se trata de questionar a legitimidade da direita enquanto corrente ideológica, mas de perguntar até que ponto seus representantes estão dispostos a defender os princípios que tornam possível a própria disputa política.

Fica, então, o questionamento às lideranças de direita que endossam discursos que representam retrocessos em direitos e conquistas democráticas. Não apenas convivem com essas manifestações, mas também publicam fotos ao lado de seus protagonistas, pedem votos e demonstram orgulho de estar lado a lado.

Esses representantes compactuam com a direita que hoje se apresenta? Porque, na prática, continuam no mesmo barco: disputam eleições, organizam manifestações e compartilham espaços de poder. Até que ponto essa convivência representa concordância, conveniência eleitoral ou simplesmente a ausência de disposição para estabelecer limites? A que preço essas lideranças estão dispostas a preservar suas alianças políticas?

Afinal, onde estão as lideranças de direita que se opõem a esse tipo de discurso? Onde estão aqueles que compreendem que divergências ideológicas fazem parte da política, mas que o respeito às instituições democráticas não deveria ser negociável?

Não se trata de idealizar o passado ou ignorar os erros dessas administrações, mas de reconhecer que a política brasileira já abrigou diferentes correntes de direita, com propostas econômicas e sociais distintas, sem que a disputa política precisasse ser reduzida à hostilidade contra minorias ou ao questionamento de direitos fundamentais.

Onde está aquela direita que, ainda que timidamente, abrigava vozes dispostas a discutir a ampliação da participação das mulheres, os direitos das pessoas LGBT e a importância de preservar a democracia? Não era uma direita sem contradições, tampouco uma direita que defendia essas pautas de maneira uniforme. Mas havia espaço para divergências, disputas internas e avanços que não dependiam da negação da dignidade de determinados grupos.

Porque a divergência política é legítima. O conservadorismo é legítimo. A defesa de um Estado menor, de valores tradicionais ou de políticas econômicas distintas também faz parte do debate democrático. O que não pode ser tratado como mera divergência ideológica é a normalização de discursos racistas, de propostas que pretendem restringir direitos fundamentais ou de manifestações que colocam em questão a igualdade entre cidadãos.

Discursos discriminatórios podem, conforme seu conteúdo e as circunstâncias, ultrapassar os limites da liberdade de expressão e configurar ilícitos previstos em lei. A imprensa tem o dever de investigá-los e contextualizá-los, e os eleitores têm o direito de cobrar responsabilidade de seus representantes.

Resta saber se essa direita ainda está disposta a se posicionar ou se assistiremos, em silêncio, à transformação de um campo político inteiro em refém de um projeto que desafia os próprios princípios da democracia que um dia ajudou a construir.

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