Na última quinta-feira (10), o vereador de Americana, Lucas Leoncine (Republicanos), visitou a cidade de Sorocaba para uma agenda com o vereador Ítalo Moreira (União Brasil). Apesar do objetivo declarado da viagem ser a troca de experiências e propostas, o que chamou atenção foi o vídeo publicado por Leoncine em frente à prefeitura de Sorocaba, local que havia sido alvo de uma operação da Polícia Federal na parte da manhã. Em tom de brincadeira, ele afirma que “não estava ali para prender o Manga”, em referência ao prefeito Rodrigo Manga (Republicanos), um dos alvos da ação.
A fala revela mais do que humor. Causa surpresa ao expor um movimento incomum: um político usando um tema grave como corrupção para atrair visibilidade e trazer o holofote da investigação para si próprio. Ao invés de se afastar da polêmica — como seria esperado em contextos delicados como este — o vereador optou por se inserir nela, ainda que indiretamente.
A operação da Polícia Federal, intitulada “Copia e Cola”, investiga suspeitas de desvios de recursos federais da saúde, envolvendo contratos com uma Organização Social contratada pela prefeitura de Sorocaba desde 2021. A investigação encontrou quase R$ 1 milhão em espécie, veículos de luxo e armas em endereços ligados a aliados próximos ao prefeito. Como o desvio seria de recursos federais, a PF que executa a investigação.
A atitude do vereador pode ser interpretada como parte de um movimento observado em setores da nova direita — o de minimizar ou relativizar investigações e denúncias graves quando os envolvidos fazem parte do mesmo campo ideológico.
A prática, muitas vezes travestida de ironia ou espontaneidade, pode contribuir para a normalização da impunidade e para a erosão da confiança nas instituições.
A investigação segue em andamento e ainda não há conclusão sobre o envolvimento direto do prefeito.
Mas o episódio acende um alerta sobre o uso estratégico da comunicação política em tempos digitais: até onde vai a liberdade de expressão de um agente público? E quando ela ultrapassa o limite da responsabilidade?